quarta-feira, 16 de agosto de 2017

ESCAPE

ESCAPE
Perdi o sono,
o que posso fazer nesse dia que tem apenas
dezenove minutos?
Ler um livro, esperar que alguém bata  em minha porta,
e me  convida para fazer amor casual?
Nada disso acontece, eu apenas espero que o sono
chegue,
talvez amanheça sem que o sono chegue,
então ouvirei o galo,
na sua provinciana e metódica função,
de cantar despertando aqueles que vão
ganhar o seu pão de cada dia.
Então faço versos, não como solução,
mas por necessidade visceral.






AOS AMIGOS AUSENTES

AOS AMIGOS AUSENTES
Sinto enorme falta de vocês, meus camaradas
às vezes olho a rua, na esperança,
que apareçam, 
inútil,
estão desaparecidos , e muito me dói a incerteza,
Se vivos ou mortos, mas onde?
Em que vala comum, se encontram?
Em que cova rasa, se encontram?
Tantos sonhos,
perdidos nos subterrâneos,
então seguirei por aqui meus camaradas,
e tenho a certeza que nada foi em vão,
o sonho ainda não acabou,
apenas adormece,
e quando acordar, virá como a estrela
na noite escura a clarear nossos caminhos,
nossa liberdade.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

MEU CORAÇÃO

MEU CORAÇÃO
Meu coração é um barco naufragado,
mar revolto, tempestade de querer,
ilha deserta, argonauta em busca de desejos,
semeia sonhos, às vezes colhe desassossego.
A! coração timoneiro leviano,
sossegue suas marés,
quero porto seguro
calmaria.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

ÓRFÃOS

ÓRFÃOS
Estamos todo órfãos nessa segunda-feira,
o ranço da aguardente domingueira,
se esvaiu pelos poros,
e eu tenho que chorar com os iguais,
nessa segunda-feira,
cuja realidade chega com o amanhecer.


domingo, 30 de julho de 2017

BEIJO DE DESPEDIDA
Depois de beber o café, beijou os filhos e a mulher, sem a certeza de que voltaria a revê-los. Verificou se de fato tinha colocado a marmita na a mochila e de novo olhou para os seus, já saudoso. Chegando ao trabalho, ainda sonolento, cumprimentou a todos, como de costume. Começando o expediente, subiu no andaime bem alto, sentiu vertigem despencando lá de cima, atrapalhando o trânsito, cujos motoristas insensíveis à tragédia berravam nomes feios,
A viúva ao
s berros, o envolvia em seus braços, dizia ser fiel até os últimos dias, terminou ali na contramão, mais uma linda historia de amor.


domingo, 23 de julho de 2017

PONTE FABRICIANO/ACESITA

PONTE FABRICIANO /ACESITA
Julgou-se necessário e amante. E quando andava na ponte do Rio Piracicaba, viu sua imagem refletida na água turva do rio, imediatamente se jogou, morreu em pleno gozo do seu narcisismo

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domingo, 16 de julho de 2017

VIVENDO O MITO DE SÍSIFO

VIVENDO O MITO DE SÍSIFO
Sonhei que subia uma montanha lamacenta. Subia até a metade dessa montanha e voltava deslizando, alguma coisa que eu não sei, me segurava, voltava a subir e acontecia a mesma coisa várias vezes. Eu vivi o mito de Sísifo e não sabia.

domingo, 9 de julho de 2017

ESCOLHA

ESCOLHA
Não me siga,
e nem vigie
sei de mim,
punir? A escolha é minha.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

OFÍCIO


                               OFÍCIO
E o despertador onomatopaicamente vai contando o tempo, tic-tac parece coração, coração é gente, despertador é máquina, mas contam o tempo, segundo a segundo, minuto a minuto, horas a fio, existência.



OFÍCIO

OFÍCIO
E o despertador onomatopeicamente
vai contando o tempo,
tic-tac parece coração,
coração é gente,
despertador é máquina,
mas contam o tempo,
segundo a segundo,
minuto a minuto,
horas a fio,
anos,
existência.

domingo, 2 de julho de 2017

MOLA PROPULSORA

MOLA PROPULSORA
MOLA PROPULSORA

Estamos nus, por aqui,
bêbados errantes tateando os labirintos
das noites escuras, dos vãos da cidade,
margeando sua s sarjetas, bebendo a aguardente lodosa
das incertezas,
sentindo na pele o açoite vil,
do carrasco domando nossa ira,
estamos perdidos na selva  e sem armas,
e nem nos livra a nossa vã utopia,
e se nos resta tê-la como único lenitivo
que ela seja mola propulsora,
da inabalável teimosia.



sábado, 1 de julho de 2017

SUSSURROS


SUSSURROS
Sussurros na madrugada na rua perdida,
corpos roçando amores suburbanos,
orgasmos proletários,
inundados de lascívia, suor e desejos.




segunda-feira, 26 de junho de 2017

DESCOBERTA


 

DESCOBERTA

Só agora adolescente se  deu conta de que algo acontecia, sentia-se inadequado, estranho, alguma coisa não encaixava. Resolveu olhar no espelho. Olhou João e descobriu Maria.

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sexta-feira, 23 de junho de 2017

OBITUÁRIO

OBITUÁRIO
Comunicamos com pesar o falecimento do poeta Jurandir Gomes Almeida, conhecido pelo pseudônimo de Cornélio Pena, falecimento ocorrido ontem quando atravessava a rua em delírio poético, quando um carro em alta velocidade o atropelou, cujo motorista fugiu sem prestar socorro. Recomenda-se a todos que comparecerem ao velório e ao enterro que recitem poesias do referido poeta, como sabemos era mestre em fazer sonetos, embora em desuso o cultivou até o seu último suspirar poético.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

ALÍVIO



Acordou do sono profundo em que estava, acendeu a luz, olhou ao seu redor e tudo estava tão confuso, caótico. Acendeu um cigarro e depois de algumas tragadas, encostou em  um cinzeiro, abriu a janela e sentiu o sol  bater em seu rosto, sentiu um pouco de paz, como se algo o aliviasse  daquele estado de sonambulismo. Então colocou no toca disco A primavera das Quatro Estações de Vivaldi.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

O PRIMEIRO LIVRO

O PRIMEIRO LIVRO
Quando ganhou o livro de contos universais, “As mais belas estórias”, cursava a quarta série, ficou deveras encantado, pois era a primeira vez que ganhava um livro, cujo o conto Ali baba e os seus quarenta ladrões, o deixou em estado de êxtase. Daquele dia em diante os livros seriam seus amigos inseparáveis.

domingo, 18 de junho de 2017

O MUNDO QUE LHE CABIA



O MUNDO QUE LHE CABIA
Não queria olhar além do mundo em que vivia. Causava aborrecimento. Então recolhia à sua caverna. Nada o impelia a sair daquele marasmo, era confortável. A claridade lhe causava medo e desconforto

sexta-feira, 16 de junho de 2017

JARDINEIRO CELESTE
Eu planto flores no céu,
louco,  muitos dirão,
sou jardineiro das galáxias,
imagino céus  coloridos,
chovendo flores,
sobre nós.



domingo, 11 de junho de 2017

SUBVERTENDO A QUADRILHA DE DRUMOND

SUBVERTENDO A QUADRILHA DE DRUMOND


João filho de Joaquim e de Margarida, nasceu, numa tarde chuvosa, em uma maternidade próximo a sua casa, prematuro ficou por alguns dias na maternidade, ganhando peso e resistência, viveu e cresceu cercado de muito carinho, teve uma adolescência livre dos arroubos comuns a tal idade, optou por estudar Jornalismo, foi na faculdade que conheceu Tereza, classe mé
dia como ele, filha de Jonas e Beatriz, nascida numa manhã ensolarada, em um dia de passeata contra a Ditadura Militar, e seus pais alheios aos problemas políticos e sociais, só queriam curtir aquela filha amada e desejada, criança tímida, fechada em si, não teve uma infância e adolescência como as outras crianças, já na fase adulta teve uma paixão avassaladora por Raimundo, pedreiro, filho de Carlos e Gorete, nascido no morro, vindo ao mundo pelas mãos da parteira Jussara, esse foi criança de verdade, brincou de bola de gude, empinou pipa, jogou bola na rua, pique esconde, fez todas as peraltices próprias de criança da favela, desde cedo teve que lutar pela sobrevivência, frequentou pouco a escola, vendeu picolé, limão no semáforo, algodão doce, servente de pedreiro e com o pedreiro mestre aprendeu a ser um também, foi quando trabalhou na casa de Maria, filha do General do Exército, Jonas Albuquerque e Escolástica,nascida numa noite chuvosa, no hospital do Exército, teve educação rígida, não se misturava a qualquer criança, estudou em uma escola Católica, onde aprendeu todas as coisas ensinadas às moças educadas ao casamento, e foi num domingo quando ia à missa viu Joaquim, filho de Carlos Eduardo e Cristina, nascido numa madrugada, no rigoroso inverno carioca de 1964, que desde cedo sofreu com a ausência dos pais, militantes de esquerda, que apareciam e desapareciam, como num passe de mágica, foi criado e educado pela avó, Dona Socorro, mulher guerreira, fez de tudo para que nada faltasse ao neto, não revelava ao neto, o real motivo da ausência dos pais, que despareceram de fato, cujo paradeiro Dona Socorro e Joaquim até hoje não obtiveram resposta. Joaquim cresceu, fez faculdade, teve uma paixão platônica por Lili, na verdade Eliete, filho de Arnaldo Soarese Débora, nasceu numa tarde chuvosa, desde cedo foi uma criança alternativa, questionava desde cedo as normas estabelecidas, dando muito desgosto aos conservadores pais. Viveu como quis, namorou quem quis, quando ficou sabendo do interesse de Joaquim, desconversou, imagine livre como era, nem queria ouvir falar em casamento, anos depois com medo da solidão, refez o seus conceitos, casou-se com J. Pinto Fernandes, homem sério empresário do ramo de móveis, filho de Arthur Pinto e Salete Fernandes, nascido no dia em que o governo militar decretou o AI-5, cuja mãe morreu devido a complicação do parto, o pai não quis saber mais de casamento, sempre ausente, coube a tia educá-lo, sendo ela de convicções severas, não teve regalias, tudo era controlado: além da escola regular, tinha aulas de judô, inglês, catecismo, sobrava pouco tempo para brincar, amigos eram poucos. A sua adolescência transcorreu da mesma forma, quando adulto optou por Administração de Empresas, passando em primeiro lugar no vestibular, numa das melhores universidades do Rio de Janeiro e mesmo sem formar assumiu os negócios da família, com a morte do pai.


quinta-feira, 8 de junho de 2017

ILUSÃO PERDIDA



ILUSÃO PERDIDA
Quase desmaiou quando viu o seu vestido de noiva, sonho quase realizado, casar com a pessoa que amava desde a adolescência. Casamento feito, festa bonita, noite de núpcias, sonho, puro encanto entregar-se ao seu homem. Tempo passou, os primeiros filhos, as primeiras desilusões, o seu homem a deixou por outra. Ficou sozinha cuidando dos dois filhos, costurado e bordando, sublimava a  ilusão perdida.

domingo, 4 de junho de 2017

CORAÇÃO POETA

CORAÇÃO POETA

Bate coração, o que te move?
Sangue? Sangue não, sangue é plasma,
no coração de poeta não cabe 
explicação lógica,
 movido a paixão e metáforas ,
o coração poeta é um itinerante navegar,
por mares e terras imaginárias,
o coração poeta está sempre a pulsar,
as intempéries desse bicho perigoso
chamado viver.

quarta-feira, 31 de maio de 2017



MANIFESTO DE UM ARTISTA SEM PALCO

O artista está sem palco,
sem plateia,
sem aplausos,
o artista não tem  amigos no governo,
não tem parentes no governo,
então o artista se cala, emudece,
não há magia, encanto,
 ou noites de ribalta.



segunda-feira, 29 de maio de 2017

AMIGOS

AMIGOS
Se pudesse prenderia 
Meus amigos dentro de uma redoma,
Porque amigos nunca podem
Estar longe,
Amigos têm que ser onipresentes,
Estar perto de nós,
A toda hora,
Todo dia.
Mas amigos voam,
E como os amamos,
Deixamos que eles voem.
Vão embora,
Ficam longe,
Vão navegar outros mares
Outras paragens,
Mas sei também que eles
Voltam
Mesmo que seja breve à volta,
Sempre será eterno o abraço.

SENHOR DE SI MESMO

SENHOR DE SI MESMO
Não me venha
com a dicotomia, Deus e o diabo,
o homem é senhor de si mesmo.

MAURICINHOS TIRANOS



Quando os mauricinhos se arvoram
em ser tiranos,
sentimos estalar em nossos corpos, coturnos burgueses,
choramos lágrimas lacrimogêneas
somos varridos feitos baratas ,
párias ,
apátridas em terra pátria,
somos guetos, esgotos,
emparedados por máquinas servis,
estamos sem rua, estamos sem cidade,
somos duendes, vagando no concreto da cidade
de déspotas.

sábado, 27 de maio de 2017

SAUDADE BREJEIRA
Era bonito de se ver, poeira levantando lá pelas bandas do ribeirão, eu já intuía, era boiada, e de onde estivesse corria para a varanda, para ver de mais perto, na estrada próximo à entrada do nosso pequeno sítio, ficava encantado de ver os bois andando em trotes, enfileirados. E o aboio dos vaqueiros? Como eram melodiosos e tristes!! Mas a boiada obedecia, parecia para o meu olhar de criança imaginativa, que boi tinha sentimento, tal era a calma que a boiada ia, calma que às vezes era quebrada por um boi rebelde, estourava, e todos o seguia, os boiadeiros valentes e acostumados a lidar com tal situação de novo colocava tudo em ordem. E ao longo da estrada a boiada ia desaparecendo, deixando-me saudoso de bois e aboios.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

POEMA INDIGNADO



POEMA INDIGNADO
Não me confies o papel ridículo de bobo da corte,
me falta graça, talento para bajulação,
digo e repito: cansei de exercer o papel da servidão voluntária,
quero mais é escrever os meus versos coloquiais,
sem rimas, versos livres e sem a pretensão de celebridade,
quero gritar ao mundo, e mandar todos para os quintos dos infernos,
e depois mandar beijos ardentes, abraços fraternos,
pedindo desculpas, amo todos vocês,
com recomendações para se agasalharem bem no frio.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

CASAMENTO HOMO AFETIVO




CASAMENTO HOMOAFETIVO
Era o assunto do dia, o escândalo do dia, em todas as rodas de conversa só se falava naquilo, “o mundo está perdido”, diziam todos, cidade pequena de costume e moral arraigados, contra aquilo iriam se mobilizar, e a dona do cartório sentia-se extremamente constrangida, nunca tinha passado por aquela situação vexatória, mas era preciso obedecer ao que rege a lei, então pela primeira vez na cidade escandalizada e indignada se realizaria o primeiro casamento homoafetivo.